O Coração de Lã

O coração vermelho que tenho sempre comigo.

Muli descobriu que, quando alguém que amamos parte para as estrelas, o nosso peito fica com um buraquinho, como se a lã se tivesse escapado. No início, esse buraquinho é frio e faz-nos querer encolher os braços. Para não deixar o frio entrar, a Muli fechou os olhos com muita força e pediu pelo seu Anjinho da Guarda das Ovelhas. Com um sussurro fofo, pediu-lhe um fio de luz, daqueles que brilham mesmo quando é noite. O Anjinho, que tem asas de algodão e cheira a baunilha, deu-lhe o fio mais bonito que tinha. Com ele, a Muli usou as suas memórias mais doces para costurar um coração vermelho mesmo ali, por cima do buraquinho da saudade.

"Ficas aqui"

sussurrou ela.

"Agora, o meu pensamento tem um dono e o meu carinho tem um lugar."

Agora, a Muli caminha como se carregasse uma coroa invisível. Às vezes, ela inclina a cabeça e sorri para o nada, só para sentir o nó daquela costura, e recorda:

"Talvez a saudade não seja um rasgão no peito, mas sim o lugar onde o amor decidiu bordar uma flor. Talvez o meu coração esteja ali para me lembrar que o inverno da alma acaba… quando aprendemos a vestir as nossas lembranças".