A Muli estava muito caladinha.
Não era tristeza… era aquele silêncio pequenino que aparece quando a barriga faz cócegas de nervoso.
"Hoje vamos ao dentista" - disse a mamã, com voz de nuvem macia.
A Muli pôs a mão na boca.
"Mas… e se ele ralhar com o meu dentinho?"
O seu ursinho, o Tó, que ia sempre dentro da mochila, parecia sussurrar:
“Os dentistas não ralham… eles são mecânicos de sorrisos.”
A clínica cheirava a coisa limpinha e brilhava como uma nave espacial. A cadeira subia e descia, fazia zzzz, e a luz parecia um pequeno sol só para a boca da Muli.
O coração dela fez: tum-tum, tum-tum.
"Sabes?"
disse a dentista, com olhos a sorrir por cima da máscara
"Os teus dentes contam histórias sobre tudo o que mastigas."
A Muli arregalou os olhos.
"Então este aqui comeu bolachas às escondidas…" - murmurou.
A dentista riu-se baixinho.
"Não faz mal. Vamos só dar um banho de espuma aos dentinhos."
Veio a escova que fazia cócegas, a aguinha que fazia glup, e um ventinho gelado que parecia um sopro de inverno. A Muli apertou o ursinho… mas depois… começou a rir.
"Faz cócegas!"
Quando acabou, a dentista deu-lhe um espelho.
"Olha para o teu sorriso."
A Muli viu… brilho. Viu um sorriso que parecia dizer:
“Eu fui corajosa.”
No caminho para casa, ela falou com o seu dentinho:
"Obrigada por mastigares maçãs, pão, sopa… eu vou cuidar melhor de ti."
Nessa noite, lavou os dentes devagarinho, como quem faz festas. Sem pressa. Com amor.
E antes de dormir, pensou:
“Às vezes temos medo das coisas que só querem cuidar de nós. Ser corajoso não é não ter medo… é dar a mão ao medo e ir na mesma.”