Flocos de Maçã

A neve não é fria. Só parece que é fria.
A Muli descobriu isso numa noite fria em que acordou e o mundo estava em silêncio. Daquele silêncio que até faz barulho por dentro. Abriu a janela devagarinho e viu os flocos a cair - leves, redondinhos, como se o céu estivesse a desfazer almofadas antigas. Vestiu o casaco e foi lá fora. Um floco de neve pousava-lhe na mão. Ficou quieta, quase sem respirar, quietinha, a ouvir o coração a saltitar. Era macia, calma. Sentiu como um abraço. Foi aí que a Muli percebeu:

"O frio não vive na neve".

O frio vive na pressa, nas mãos vazias, nos dias em que ninguém repara. A neve só chega quando o mundo precisa de parar. Quando o inverno pede colo. Caminhou pela rua, deixando pegadas brilhantes, como se o chão quisesse responder. Cada floco parecia sussurrar:

"Não tenhas medo. Eu só vim descansar um pouco."

De repente, o ar ficou diferente. Mais quente, mais atento. Uma voz suave, como vento a passar entre árvores, falou:

"Muli, portaste-te bem. Ouviste o silêncio, cuidaste da neve. Tens direito a um desejo."

A Muli fechou os olhos. Pensou em brinquedos, em coisas bonitas… Mas depois pensou nas crianças que pouco ou nada tinham. Nas mãos vazias. Nos dias frios demais. E então quando abriu os olhos, disse baixinho:

"Queria que os flocos de neve se transformassem em maçãs.
Para eu as poder dar às crianças que não têm nada para aquecer o dia."

O céu ficou quieto por um instante. E depois sorriu. A neve começou a cair outra vez. Mas diferente. Cada floco que tocava o chão transformava-se numa maçã vermelha, redonda, viva. Não eram maçãs frias. Eram maçãs com sabor a cuidado. A Muli apanhava-as uma a uma, com as duas mãos, e distribuía.
Havia crianças a sorrir sem saber porquê. Havia olhos a brilhar como quem finalmente é visto. Nessa noite, ninguém ficou sem maçã. E o inverno pareceu menos pesado. Quando a Muli voltou para casa, levava neve nos cabelos, maçãs no bolso e um calor no peito que não vinha do casaco. Antes de adormecer, pensou:

"Talvez a neve caia para ensinar as pessoas a serem suaves. Talvez os desejos existam para quem escolhe partilhar. E se a neve não é fria… então o inverno também não é. É só o mundo, em silêncio, a pedir colo"