Todas as noites era igual. O sol ia embora… a luz apagava… e a Muli corria para o quarto não para dormir. Vestia o seu fato de karaté. Calçava as luvas de boxe. Ficava em posição de luta em cima da cama.
“Escuro! Se vieres, eu estou pronta! “- dizia ela, muito séria.
Dava socos no ar, pontapés nas almofadas, porque achava ela que o escuro era um vilão que aparecia todas as noites. Numa dessas noites, já cansada de tanto “combate”, parou. O quarto estava silencioso, o escuro não atacava, não puxava a manta, não roubava os pés que ela escondia debaixo das mantinhas. Só estava ali… quietinho.
“Estás a lutar comigo?”- perguntou ela ao escuro.
E no seu coração veio um pensamento sossegadinho:
“Eu não sou teu inimigo. Eu venho para guardar os teus sonhos.”
Olhou à volta. No escuro dava para ver a lua. As estrelas. A casa toda a descansar. Tirou as luvas e dobrou o fato de karaté.
“Então… tu não és um monstro?
O quarto parecia sorrir em silêncio. Deitou-se e puxou a manta até ao queixo.
“Está bem… hoje não lutamos. Hoje dormimos.”
E percebeu uma coisa muito importante: Às vezes, passamos tanto tempo a preparar-nos para lutar… que não percebemos que não há guerra nenhuma. Nessa noite, a Muli não foi uma guerreira. Foi só uma menina tranquila, protegida pelo escuro que guardava os seus sonhos.